Adriessa - Neurociência e Educação

Como o conhecimento sobre o cérebro pode fortalecer a motivação dos estudantes? Contribuições de um estudo canadense para repensarmos a aprendizagem

Você já se perguntou como conversar sobre o cérebro pode ajudar seus estudantes a aprender melhor? Um grupo de pesquisadores do Canadá investigou exatamente isso.

O que eles queriam saber?
O objetivo do estudo foi entender se ensinar sobre neuroplasticidade, que é a capacidade do cérebro de mudar e se adaptar com o aprendizado, poderia influenciar a motivação dos estudantes, o controle dos impulsos (controle inibitório) e o desempenho em tarefas escolares, especialmente na matemática.

Como o estudo foi feito?
Participaram 44 estudantes de 10 a 12 anos, de escolas do Canadá. Eles foram divididos em dois grupos:

  • Grupo experimental: assistiu a um vídeo curto, de pouco mais de 4 minutos, que explicava como o cérebro cria novas conexões com o esforço, a prática e o uso de estratégias. O vídeo também falava sobre a importância dos erros no processo de aprender e sobre como acreditar que somos capazes ativa ainda mais o nosso cérebro.
  • Grupo de controle: assistiu a um vídeo parecido em estilo e duração, mas com um tema neutro (mudanças climáticas), sem falar de cérebro ou aprendizagem.

Depois, todos os estudantes responderam a um questionário sobre motivação e participaram de uma tarefa de matemática (comparação de frações), enquanto tinham sua atividade cerebral observada por ressonância magnética funcional (fMRI).

O que eles descobriram?

  • Os estudantes que aprenderam sobre o cérebro se sentiram mais motivados, com maior percepção de controle, mais preparados para lidar com os erros e com mais confiança na própria capacidade.
  • Curiosamente, a crença de que as habilidades podem mudar (que faz parte da teoria do mindset) não mudou de forma significativa.
  • O desempenho na tarefa matemática não foi diferente entre os grupos, mas o grupo que aprendeu sobre neuroplasticidade ativou mais áreas do cérebro relacionadas ao controle dos impulsos, especialmente o córtex pré-frontal ventrolateral e o núcleo caudado.
  • Um dos achados mais interessantes foi que o sentimento de competência percebida, ou seja, acreditar que é capaz de aprender, teve relação direta com a atividade cerebral nessas áreas de controle.

O que isso nos diz sobre a sala de aula?

Às vezes, focamos só no erro ou no acerto, mas esquecemos que a forma como o estudante se percebe faz diferença no processo de aprender. Quando o estudante entende que o cérebro muda com o esforço e que o erro é parte do caminho, ele se sente mais capaz e engaja melhor nas tarefas, mesmo que o resultado não apareça de imediato.

E como trazer isso para a prática?

  • Converse com seus estudantes sobre como o cérebro aprende. Não precisa ser complexo: uma explicação simples e acolhedora já pode abrir esse espaço.
  • Reforce a ideia de que o erro faz parte do processo de criar novas conexões.
  • Cuide da construção da confiança: quando o estudante acredita que pode aprender, ele se envolve mais e o cérebro responde a esse envolvimento.
  • Lembre-se: os efeitos aparecem aos poucos. Mais importante do que buscar resultado imediato é fortalecer o sentimento de que se é capaz e a disposição para tentar de novo.

Em resumo: ensinar sobre o cérebro, com linguagem simples e respeitosa, pode ser um caminho para que estudantes se reconheçam como aprendizes potentes. E isso começa na forma como falamos com eles, acolhemos os erros e mostramos que aprender é, também, transformar o próprio cérebro.

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