Sempre que falo sobre educação inclusiva, gosto de reforçar que a inclusão é para todas as pessoas. Quando pensamos cuidadosamente em como garantir a participação de alguém, muitas vezes criamos condições melhores para todos os outros também. Eu dizia isso com frequência, mas só compreendi profundamente quando vivi, como estudante, a experiência de ser incluída sem nem saber que precisava disso.
Certa vez, em uma aula, percebi como era difícil acompanhar o conteúdo. Estudávamos um autor fundamental para minha formação, mas distante da minha área de pesquisa. Os conceitos e a linguagem acadêmica eram densos e em pouco tempo eu já não conseguia seguir a linha do raciocínio. Quase sem perceber, comecei a desenhar florzinhas no caderno. Havia ali uma sensação de não pertencer àquele espaço, sabe?
Até que uma colega chegou. Ela é surda e, naquele dia, estava sem intérprete de Libras. O professor, incomodado com a ausência do apoio a que ela tinha direito, mudou completamente sua forma de conduzir a aula. Falou mais devagar, escolheu palavras mais simples, escreveu no quadro, desenhou esquemas, apontou conexões. E ali, ao acolher a colega, ele me acolheu também. Pela primeira vez naquele dia, eu consegui acompanhar.
Na semana seguinte, com os intérpretes presentes, ele novamente se preocupou com a posição deles na sala, com a nitidez da fala, com os gestos. Mas em outra aula, quando a colega faltou, consegui acompanhar um pouco no início, mas logo se tornou difícil de novo.
Naquele mesmo dia, tive a oportunidade e compartilhei com o professor:
— Professor, o senhor percebe que dá aula de um jeito diferente quando a nossa colega surda está presente?
Ele se mostrou surpreso, achando que fosse uma crítica.
— Não, professor — eu disse —, quero dizer que foi muito bom. Porque, quando o senhor pensou em recursos para incluí-la, me incluiu também.
Compartilhei isso porque eu mesma estava com dificuldades em acompanhar aquela aula. E percebi, na prática, que as mudanças feitas para acolher a colega também abriram caminhos para mim.
Ele ficou em silêncio por um momento e respondeu algo como: “Eu nunca tinha pensado nisso…”
Estou falando de um profissional com aproximadamente 50 anos de docência, que, mesmo com toda essa experiência, se mostrou surpreso e aprendiz.
Foi ali que entendi, de forma concreta, que quando criamos condições para que uma pessoa seja incluída, muitas outras podem ser beneficiadas e hoje, 26 de setembro, Dia Nacional do Surdo, essa lembrança ganha ainda mais sentido.