Muitas vezes associamos feedback apenas ao momento de corrigir uma avaliação. Mas, na escola, ele é parte do caminho, ajuda a dar sentido ao que o estudante está construindo, sustenta escolhas e convida a olhar de novo para o próprio percurso. Quando a devolutiva é concreta, situada no processo e feita em diálogo, ela oportuniza que cada estudante avance a partir do ponto em que está.
Um primeiro passo é tornar visível o avanço que já existe. Em vez de “muito bom”, vale nomear o avanço: “Você organizou bem suas ideias e conectou o que vimos na aula passada ao exemplo de hoje”. Ao destacar o que funcionou, o estudante reconhece estratégias que pode reutilizar. Em seguida, as perguntas entram como alavancas do pensamento: “O que ficou mais desafiador aqui?”; “Como esta resposta conversa com a anterior?”. Perguntar não é pedir a “resposta certa”; é abrir espaço para que a pessoa explicite raciocínios, dúvidas e decisões.
Também é importante aproximar o erro da aprendizagem e não do fracasso. Trocar “isso está errado, refaça” por “o que mudaria se tentássemos outra variável?” desloca o foco do julgamento para a investigação. A partir daí, oferecer caminhos concretos de melhoria dá direção: “Na próxima versão, comece pelo enunciado da ideia principal e depois traga os exemplos”, ou “revise usando os termos científicos do ciclo da água”. Pequenos ajustes tornam o próximo passo visível e possível.
Outro cuidado é que o feedback não apareça só no fim. Devolutivas ao longo do processo, durante a leitura, a escrita, a resolução de problemas, ajudam a reorganizar trajetórias antes de fechar a atividade. Comentários escritos também podem focar no fazer, e não em rótulos: “Percebi que nesta parte você não concluiu a atividade; vamos localizar juntos onde parou?”. Assim, a conversa mantém o estudante como autor do próprio percurso, e o professor como parceiro que media e dá linguagem ao que está em construção.
Essa orientação dialoga com diferentes perspectivas na educação: quando o estudante participa ativamente da revisão, tende a consolidar melhor o que aprendeu (Dehaene, 2022); feedback que aponta direção tem mais potência (Hattie; Timperley, 2007); emoção e sentido importam para aprender (Immordino-Yang; Damasio, 2007); e um olhar para o processo favorece mentalidade de crescimento (Dweck, 2017). Na prática, tudo isso se encontra quando a escola transforma a devolutiva em convite: observar o que já deu certo, perguntar para sustentar o raciocínio, tratar o erro como parte do caminho, indicar próximos passos, acompanhar durante o percurso e escrever com foco em “como” a aprendizagem aconteceu.
Para já colocar tudo isso em prática, escolha uma atividade e combine dois movimentos: nomeie um avanço específico e faça uma pergunta que ajude a pessoa a explicar a própria estratégia. É simples, possível e mantém o aprender em diálogo.
Referências
DEHAENE, Stanislas. É assim que aprendemos: por que o cérebro funciona melhor do que qualquer máquina (ainda…).São Paulo: Contexto, 2022. 368 p.
DWECK, Carol S. Mindset: a nova psicologia do sucesso. 1. ed. Rio de Janeiro: Objetiva, 2017. 312 p.
HATTIE, John; TIMPERLEY, Helen. The power of feedback. Review of Educational Research, v. 77, n. 1, p. 81-112, mar. 2007. DOI: 10.3102/003465430298487.
IMMORDINO-YANG, Mary Helen; DAMASIO, Antonio. We feel, therefore we learn: the relevance of affective and social neuroscience to education. Mind, Brain, and Education, v. 1, n. 1, p. 3-10, 2007. DOI: 10.1111/j.1751-228X.2007.00004.x.