Adriessa - Neurociência e Educação

Sono, cérebro e aprendizagem: o que precisamos considerar

Dormir é uma necessidade biológica fundamental, mas o cérebro não “desliga” quando adormecemos. Durante o sono, ele continua ativo, eliminando substâncias tóxicas, regulando hormônios, repondo neurotransmissores e reorganizando seu próprio funcionamento. Esses processos mantêm o equilíbrio metabólico e ajudam o cérebro a despertar em melhores condições para aprender.

A ideia de que dormir pouco é sinal de produtividade ainda é muito comum, mas não corresponde ao que sabemos sobre o funcionamento do corpo e da mente. A privação de sono enfraquece a consolidação das memórias, prejudica a atenção, altera o humor, desregula hormônios importantes e dificulta tomadas de decisão. Estudar ou trabalhar até tarde pode trazer uma sensação de rendimento imediato, mas o cérebro acorda menos preparado para aprender e mais vulnerável à fadiga mental. O sono é tão essencial quanto alimentação e atividade física. Sem ele, o aprendizado se torna mais curto, mais instável e mais difícil de acessar depois.

Enquanto dormimos, o cérebro passa por ciclos com fases distintas e cada uma delas cumpre um papel importante na aprendizagem. Nas fases de sono leve e profundo, ele diminui o ritmo e sincroniza suas ondas, fortalecendo memórias declarativas, aquelas ligadas a fatos, conteúdos e informações que podemos expressar em palavras. Já o sono REM, marcado por maior atividade cerebral, consolida memórias relacionadas a habilidades, como tocar um instrumento, praticar um esporte ou elaborar experiências emocionais mais complexas. Os sonhos fazem parte desse trabalho, ajudando o cérebro a reorganizar o que foi vivido e a dar sentido às experiências.

Um estudo conduzido por Sidarta Ribeiro e sua equipe em escolas públicas do Rio Grande do Norte ajuda a visualizar esse processo na prática. Estudantes que tiravam uma soneca após a aula foram comparados com colegas que seguiam as atividades sem dormir. No dia seguinte, todos lembravam o conteúdo estudado, mas, dias depois, apenas aqueles que tinham dormido mantiveram essa lembrança. O sono não aumenta a quantidade de informações aprendidas, mas sustenta a memória ao longo do tempo, tornando-a mais duradoura.

Mesmo quando discutimos estratégias pedagógicas, que é essencial na escola, é importante lembrar que aprender também depende de condições biológicas e o sono é uma delas. É no descanso que o cérebro reorganiza as informações, fortalece as conexões criadas durante o estudo e ajusta o que será consolidado como memória. Com crianças pequenas, isso envolve prever pausas e momentos de descanso. Com adolescentes, é necessário reconhecer que mudanças biológicas naturais atrasam o início do sono e que a combinação entre telas, demandas escolares e horários muito cedo aumenta a privação de descanso. Muitas vezes, o adolescente que parece desinteressado está, na verdade, exausto e esse cansaço interfere diretamente no humor, na atenção e na capacidade de aprender.

A escola pode contribuir abrindo diálogo sobre esses fatores, ajudando estudantes a repensar hábitos e conversando com as famílias sobre a importância do sono. Cuidar do sono é cuidar das condições que tornam a aprendizagem possível. Parar faz parte do processo de aprender. É nas pausas, no descanso e no sono que o conhecimento ganha forma, encontra sentido e se torna memória duradoura. Dormir bem não é apenas descansar: é continuar aprendendo.

Referência: 

Este material baseia-se na entrevista “Sono, memória e aprendizagem”, do programa Diálogo Plural, com participação do neurocientista Sidarta Ribeiro (UFRN), disponível no canal do Sintest-RN. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=XRGzUYFui4I&t=357s.

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